Sobre o Coletor Menstrual – Entrevista Marina Trindade e Inaê Nascimento (About Menstrual blood Collector – Interview with Marina Trindade and Inaê Nascimento)

Você já parou para pensar na quantidade de lixo gerado ao longo do ano com o seu uso de absorventes externos ou internos? Já pensou em quanto você gasta comprando esses itens todo mês? Eu, por exemplo, gasto em média R$ 5,00 por mês nessa compra, o que daria ao ano R$ 60,00 , uma quantia relativamente baixa comparada ao que deve gastar alguém que usa absorventes internos e absorventes noturnos.

Uma alternativa a esses métodos de coleta da menstruação ficou mais em evidência nos últimos anos: o coletor menstrual. Ele é um “copinho” feito de um material maleável (silicone, látex, entre outros) que se ajusta ao corpo e é reutilizável, podendo ser usado por 5 anos ou mais se respeitados os devidos cuidados de higiene e se ele estiver em perfeito estado, só é um investimento inicial mais caro.

“Como assim?” você pode pensar, “Reutilizar? Argh!” Para algumas pessoas pode parecer nojento e eu li comentários nesse sentido nas matérias que consultei sobre o assunto, mas tenta pensar na economia, no conhecimento do próprio corpo e na quantidade de lixo, não vale a pena? Muitas mulheres afirmam que sim, vale a pena.

Há basicamente dois tamanhos de coletor: um para mulheres que já tiveram filhos e outros para as que ainda não tiveram. O coletor tem um “cabinho” na sua base que permite à mulher segurar na hora de retirá-lo para higienização. Em algumas marcas esse “cabinho” pode ter vários formatos: anel, haste ou bola. Nas minhas pesquisas encontrei coletores de várias cores, até uns com glitter 😀

Existem hoje várias marcas que comercializam os coletores: HolyCup, Inciclo, MoonCup, Me Luna, pelo menos foram essas que encontrei na Internet. Nas pesquisas encontrei uma marca nova (eu não conhecia), chamada Prudence SoftCup, essa difere das outras por comercializar um coletor descartável, que dura somente 12 horas e difere também no posicionamento dentro do canal vaginal. Pode ser uma alternativa para quem nunca experimentou, mas não contribui para a diminuição da quantidade de lixo.

Como eu ainda não posso falar da minha experiência com o coletor, porque nunca o experimentei, convidei duas moças, que conheci no mundo da Arte, para falar sobre o assunto: Marina Trindade e Inaê Nascimento. As duas são integrantes do Projeto Vertigem, Marina é licenciada em Dança pela UFPA e Inaê é Oceanógrafa também pela UFPA. Confira o que elas contaram sobre essa experiência:

1 – Como você soube da existência do coletor menstrual?

Inaê – pela internet, não lembro bem como, vi algo sobre, fiquei curiosa e fui pesquisar sobre.

Marina – Fiquei sabendo do coletor através da internet e depois descobri que Inaê tinha um há um tempo, mas não tinha conseguido usar com frequência ainda.

Foto do reflexo de Inaê olhando para o espelho
Inaê Nascimento

2 – A questão ambiental (excesso de lixo no planeta) influenciou de alguma forma a sua decisão?

Inaê – totalmente. Foi a questão ambiental principalmente que fez eu querer saber mais sobre. Depois, já com o uso do coletor que vieram outras questões sobre autonomia, saúde feminina etc.

Marina – Com certeza, acredito muito que as micro-mudanças que fazemos nos nossos hábitos influenciam na macro-mudança. Acho que foi um dos maiores impulsionadores pra minha escolha.

3 – Você teve algum receio em experimentar o coletor?

Inaê – Sim. A principio eu fui logo atrás de relatos sobre o coletor, pra saber se funcionava, se era seguro. O primeiro pensamento é “um copinho dentro de mim… será se?” Medo de vazar, de incomodar, de machucar, e ele não é barato, é barato a longo prazo, mas não se paga de 60 a 90 contos em algo desconhecido e pra um uso tão íntimo e.delicado como esse. Foi preciso arriscar e confiar nos relatos das outras meninas.

Marina – Não.

Marina ao lado de um peixe pintado na parede
Marina Trindade

4 – Você teve alguma dificuldade em adquirir o coletor menstrual?

Inaê – Nenhuma. Na época só tinha o mooncup (que é a marca que eu uso), que era uma marca estrangeira, mas foi super fácil, entrei no site e comprei, chegou direitinho no prazo etc. Hoje tem várias marcas, Belém já tem revendedoras. Enfim, já é bem mais acessível e divulgado

Marina – Não, busquei na internet, encontrei o INCICLO e fiz o pedido, chegou super rápido, mas foi um investimento financeiro.

5 – Como foi o processo de adaptação ao novo método? Alguma vez você pensou em desistir durante esse período?

Inaê – Eu desisti por 1 ano mais ou menos. Na primeira menstruação depois de adquirir o copinho em que fui experimentá-lo foi um desastre. Me bati pra colocar, mas consegui, na hora de tirar, eu estava muito tensa, desconfortável, impaciente e me machuquei. E aí eu desisti de usar. Ficou guardado. Nesse ano se iniciou todo um processo de transformação na minha vida, eu comecei a exercitar o vegetarianismo, a ter contato consciente com o feminismo, a procurar práticas mais naturais e menos agressivas, enfim. Então quando eu fui experimentar usá-lo pelo segunda vez, eu estava muito mais paciente comigo mesma e disposta a lhe dar com meu corpo, e foi ótimo. Claro que nos primeiros meses foi um exercício de autoconhecimento, descobrir a forma mais confortável pra mim de colocá-lo, identificar a posição certa pra não ocorrer vazamentos, o tempo de uso, etc. Tudo com muita paciência e cuidado comigo mesma. Não foi fácil e simples, é necessário quebrar alguns tabus, né. A maioria das meninas não se tocam, por exemplo. Eu não tive esse problema, mas com o uso do coletor eu tive que me observar de fato. Ao mesmo tempo que foi um processo de aprender a usar o coletor, foi um processo de conhecimento do meu corpo, da minha vagina, do meu ciclo, do meu sangue. E descobertas maravilhosas. Eu descobri que o meu sangue não fede, pelo contrário inclusive, ele tem um cheio que eu gosto. O cheiro ruim era do absorvente! Eu descobri a intensidade real do meu fluxo. Eu descobri que eu posso usar meu sangue como um adubo poderoso. E uma coisa vai puxando a outra, com o uso do coletor, fui buscando mais práticas que me dessem autonomia e autoconhecimento. Passei a usar o diário menstrual, já aprendi e uso várias ervinhas, receitinhas e práticas ótimas para saúde feminina. Então o uso do coletor ajudou e muito no processo de autoconhecimento e autonomia, esse processo ainda existe, e acredito que será um exercício constante de aperfeiçoamento, mas, por exemplo, atualmente não tenho cólicas, eu sei o que usar se vier a cólica ou outro incomodo, conheço o meu ciclo, sei quando vou menstruar e quando tô ovulando, eu sinto quando eu tô ovulando e por qual dos meus ovários, sabe?! A maioria das meninas não se conhece nesse sentido mais básico que é físico, é bicho. E essas coisas me foram permitidas por esse processo no qual o coletor está inserido totalmente. Um processo de cultivo do amor próprio e autonomia feminina, eu diria.

Marina – O processo de adaptação depende da relação que cada mulher tem com seu corpo. Existem diferentes formas de colocar o coletor menstrual, testei algumas, mas a que mais me adaptei foi de cocóras, é ótimo! E aos poucos, e com a prática mês a mês, foi ficando mais tranquilo. O principal problema que encontro as vezes é a estrutura dos banheiros públicos, então passei a andar com um spray de água pra lavar o coletor quando tiro e coloco de volta, mas de qualquer forma o ideal é tentar fazer isso em um banheiro com o minimo de higienização. Nunca pensei em desistir de usar, o coletor é uma invenção genial!

6 – Qual recado você daria às mulheres que ainda não experimentaram o coletor?

Inaê – Manas, experimentem. Se permitam a experimentar. Não é fácil de primeira, pelo menos não para todas, mas tenha paciência e seja carinhosa consigo mesma, e usufrua de todo o autoconhecimento que esse copinho lhe trará. É uma porta para aprender a reconhecer e usufruir do próprio ciclo, e com a prática o coletor menstrual se torna de fato um super amigo desses dias sangrentos, é prático, confortável, seguro, a ponto de esquecer que a gente tá menstruada usando qualquer coisa. Fora que nunca mais dinheiro gasto com absorventes e lixo produzido pelo uso deles. Seu corpo e o ambiente agradecerão, acredite e se permita!

Marina – O coletor é libertador, imagina poder tomar uma banho e ficar pelada andando em casa mesmo menstruada. Hehe, isso é possível. Ele é super importante para a nossa proximidade com o próprio corpo, com o sangue, com as formas, os cheiros, aos poucos a gente vai descobrindo a beleza da naturalidade, o sangue no coletor não entra em contato com o ar, ele não fede e nem fica escuro como no absorvente, podemos até diluir em água e jogar nas plantas, nosso sangue é rico em muitos nutrientes, nosso sangue é vida. Sem falar que economizamos uma grana, imagina não precisa mais comprar absorventes e parar de produzir a quantidade absurda de lixo que produzimos. Encomendo e recomendo!!

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E então? Está empolgada agora para quem sabe experimentar o coletor? Acesse os links das lojas que coloquei nesse post, converse com mulheres que já usam, entre em alguns grupos do Facebook que falam sobre isso e arrisque-se. Você pode começar lendo alguns das fontes que consultei para elaboração do post:

Coletor Menstrual: Por que não falamos dele 
O uso de absorventes internos e a síndrome do choque tóxico
Como usar o coletor menstrual: passo a passo e dicas para higienizar
Coletor Menstrual: prós e contras do produto 
Passando aperto com um coletor menstrual

Crédito da foto do coletor: Menstruationstasse (DivaCup) in der Hand via photopin (license)

[:en]Have you ever thought about the amount of waste generated throughout the year with your pads use? Have you thought about how much you spend buying these items every month? For example, I spend on average R$ 5.00 per month on this purchase, which a year costs R$ 60.00, a low amount when you compare with women who use tampons.

An alternative to these menstruation collector methods became more evident in recent years: the menstrual blood collector or menstrual cup. It is a “cup” made of a soft material (silicone, latex, etc.) that fits the body and is reusable and can be used for 5 years or longer respected the proper hygiene and if it is in perfect condition. It’s just an “expensive” purchase.

“What do you mean?” you may think, “Reuse? Argh!” For some people it may seem disgusting and I’ve read comments in the Internet, but try to think about economy, the knowledge of the body and the amount of garbage, doesn’t worth it? Many women say yes, it’s worth it.

There are basically two collector sizes: one for women who already have had children and others to those who hadn’t. The collector has a “stalk” at its base that allows a woman to hold to remove it for cleaning. In some brands that “stalk” can take many forms: ring, rod or ball. In my research I found collectors of several colors, even ones with glitter 😀

There are now several companies that sell collectors: HolyCup, Inciclo, Mooncup, Me Luna, at least those were the ones I found on the Internet. I found a new company (I haven’t heard about it yet), Prudence softcup, which differs from others to market a disposable collector, which lasts only 12 hours and also differs in positioning within the vagina. It may be an alternative for those women who never experienced a menstrual cup, but does not contribute to reduce the amount of waste.

As I cannot talk about my own experience with the mesntrual cup because I’ve never tried it, I invited two friends of mine to talk about it: Marina Trindade and Inaê Nascimento. Both are members of Projeto Vertigem, Marina has a degree in Dance from UFPA and Inaê is oceanographer also by UFPA. Check out what they told about this experience:

1 – How have you heard about menstrual cup ?

Inaê -through Internet, I don’t remember exactly, I saw something about it , I got curious and went searching on .

Marina – I’ve heard about menstrual cup through Internet then Inaê told me she had one but hadn’t have used it very often.

Foto do reflexo de Inaê olhando para o espelho
Inaê Nascimento

2 – Environmental issues (excessive trash on the planet ) did somehow influence your decision?

Inaê – Of course. This was the main point that made ​​me want to know more about it After, when I had already used menstrual cup I began to think about other questions like autonomy, women’s health etc.

Marina – Certainly, I strongly believe that micro-changes we make in our habits influence the macro-change. I think it was one of the major drivers for my choice.

3 – Did you have any fear to try the menstrual cup?

Inaê – Yes. At first I asked some people about their experiences, to know if the menstrual cup worked , if it was safe. I thought  “it is a cup inside me … will it hurt me? “Fear of leaks, to bother, to hurt, and it’s not cheap, it’s cheaper in the long term but you do not pay 60-90 reais (brazilian currency) into something unknown and to use it requires intimacy. I had to take a chance and trust the reports of other girls .

Marina – No.

Marina ao lado de um peixe pintado na parede
Marina Trindade

4 – Did you have any difficulty in buying the menstrual cup?

Inaê – None. That time only had the Mooncup (which is the brand I use now) , it was a foreign brand , but it was very easy. I bought on the internet. Today there are several brands , Belém has already people who sell it . Anyway, it is much more accessible and disseminated today.

Marina – No, I searched the Internet , found the INCICLO and made the request, it arrived very fast, but it was a great financial investment.

5 – How was the process of adapting to the new method ? Have you ever thought about giving up during this period ?.

Inaê – I gave up for 1 year or less. In the first period after getting the cup when I tried it was a disaster. I had difficulties in putting it in, but I succed, when I had to remove, I was very uncomfortable, impatient and hurt myself. And then I gave up to use. I kept it. That year I started a whole process of transformation in my life, I started to try vegetarianism, to have conscious contact with feminism, look more natural and less aggressive practices, anyway. So when I went to try to use it the second time, I was more patient with myself and willing to give  my body a second chance, and it was great. Of course in the first months it was a self exercise, find out the most comfortable way for me to put it in, identify the right position to not occur leaks, time of use, etc.. I was not easy or simple, it’s necessary to break some prejudices. Most girls do not touch themselves, for example. I did not have this problem, but with the use of collector I had to watch me indeed. At the same time it was a process of learning to use the cup, was a process of knowing my body, my vagina, my cycle, my blood, wonderful discoveries. I found out that my blood does not stink, even the opposite, I like the smell of it. The bad smell was the pad! I discovered the real strength of my flow. I have found that I can use my blood as a powerful fertilizer. With using the cup, I was searching more ways to give me autonomy and self-knowledge. I started using the menstrual diary, I have learned and use several plants, recipes and other best practices for women’s health. Then the use of collector helped and in the process of self-knowledge and autonomy, this process still exists, and I believe that will be a constant search of improvement, but for example, nowadays it’s not common to me  to have mesntrual cramps, I know what to use if it comes to mesntrual cramp or another bother, I know my cycle, I know when I menstruate and when I’m ovulating, I feel when I’m ovulating and which of my ovaries is ovulating, you know ?! Most girls do not know that most basic sense that is physical, is an animal. And these things have been allowed for this process in which the collector is fully inserted. A cultivation process of self-love and female autonomy, I would say.

Marina – The process of adaptation depends on the relationship that each woman has with her body. There are different ways to put in the menstrual cup, I tested some , but the position I most like to put it in is squatting , it’s great!  Practice every month , it became easier to me. The main problem I find is sometimes the structure of public toilets , then I started to walk with a spray of water to wash the mesntrual cup when I remove it then and put it back, but in any case it is best to try this in a bathroom with hygiene . I never thought of giving up use, the menstrual cup is a brilliant invention!

6 – What  would you say to women who have not  experienced the mesntrual blood collector ?

Inaê – Girls, try it! Allow yourself to experience it . It is not easy at first, at least not for all , but be patient and be loving to yourself , and enjoy all the self control that this cup will bring . It’s a door to learn to recognize and take advantage of the cycle itself , and with practice the menstrual cup becomes indeed a super friend of those bloody days, it is practical , comfortable, safe to the point of you will forget you’re menstruating using anything. Besides, I’m not going to spend my money buying pads or tampons and avoid the waste produced by their use. Your body and the environment will thank you, believe and allow yourself!

Marina – The menstrual blood collector is wonderful! Imagine being able to take a shower and walk naked  at home even when you’re menstruating . This is possible. It’s very important to our proximity to the body, with blood, with the shapes, smells , little by little we will discover the beauty of natural , blood in the collector does not come into contact with air , it does not stink nor it is dark as the mesntrual pads , we may be diluted with water and playing in plants, our blood is rich in many nutrients , our blood is life. And we saved some money , imagine no longer need to buy mesntrual pads or tampons and stop producing the amount of waste we produce. I recommend!!

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And then? Are you excited now to maybe try the menstrual blood collector ? Follow the links to the shops I’ve put this post , talk to women who already use , join some Facebook groups that talk about it and try. You can start reading with these texts I read to prepare the post:

Coletor Menstrual: Por que não falamos dele  (Portuguese-Brasil)
O uso de absorventes internos e a síndrome do choque tóxico (Portuguese-Brasil)
Como usar o coletor menstrual: passo a passo e dicas para higienizar  (Portuguese-Brasil)
Coletor Menstrual: prós e contras do produto  (Portuguese-Brasil)
Passando aperto com um coletor menstrual (Portuguese-Brasil)

Photo: Menstruationstasse (DivaCup) in der Hand via photopin (license)

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